A economia brasileira contemporânea
O período militar chegava ao fim não com a explosão de uma revolução, mas com o tramite regrado de um Colégio Eleitoral. Em 15 de janeiro de 1985, deputados federais, senadores e representantes partidários consagraram Tancredo Neves como o primeiro presidente civil desde 1964. A multidão foi às ruas não para votar, mas para comemorar a esperança. Tancredo representava a conciliação possível entre o antigo regime e a Nova República que se anunciava.
Mas a história, que tantas vezes escreve com ironia, reservava um golpe. Na véspera da posse, Tancredo adoeceu. O país acompanhou cada boletim médico, cada lampejo de esperança, cada silêncio. Em 21 de abril, data simbólica, ele morreu. Não governou um só dia. Seu vice, José Sarney — homem de passado ligado ao regime que se encerrava — assumiu a presidência em 15 de março, ainda sob a sombra da doença de Tancredo, e herdou o peso de uma transição que não era sua.
Embora tenha lançado outros três pacotes depois, seu governo ficaria marcado pelo primeiro deles: o Plano Cruzado. Em 28 de fevereiro de 1986, a moeda nacional mudou: mil cruzeiros passaram a valer um cruzado. O congelamento de preços e salários foi decretado. A população, cansada da inflação que corroía o poder de compra, abraçou o plano com entusiasmo.
Os salários foram definidos com base no poder de compra médio dos últimos seis meses, acrescidos de um abono de 8% — com exceção do salário mínimo, que subiu 16%. As datas de reajuste das categorias profissionais foram mantidas, os prazos de financiamento nos crediários aumentaram, a taxa de câmbio foi controlada. O resultado foi imediato: o poder de compra dos assalariados disparou. As famílias, antes acostumadas a ver o dinheiro derreter, passaram a consumir como há muito não faziam.
O plano contou com grande apoio popular e de parcela expressiva de economistas da oposição. As taxas de inflação tiveram queda vertiginosa, mantendo‑se baixas até outubro de 1986. O governo Sarney, impopular até então, viu sua aprovação disparar. O PMDB, partido do presidente, elegeu governadores em 22 dos 23 estados brasileiros então existentes. A euforia tomava conta do país.
Por causa do aumento do poder aquisitivo e da dilatação dos prazos de financiamento, muitas famílias passaram a consumir mais produtos de vários gêneros, apesar dos juros ainda elevados. As geladeiras, os televisores, os fogões — tudo se vendia como água. O crédito fácil e a ilusão de que a festa não teria fim movimentaram o comércio e aqueciam a indústria.
Tancredo eleito e morto. Sarney assume. Inflação alta, descontrole.
Plano Cruzado: congelamento, moeda nova, euforia popular.
O Plano Cruzado reverteu a impopularidade de Sarney e deu ao governo uma base política sólida. Mas o congelamento não podia durar para sempre. Os preços represados começaram a pressionar o mercado paralelo; o ágio surgiu nas esquinas; produtos sumiam das prateleiras para reaparecer mais caros em outros lugares. A inflação, como fênix, voltaria com força redobrada nos meses seguintes, exigindo novos pacotes — o Cruzado II, o Plano Bresser, o Plano Verão. Nenhum teria o mesmo impacto simbólico e popular do primeiro.
O legado do Plano Cruzado é ambíguo: por um lado, deixou lições sobre os limites do intervencionismo; por outro, mostrou a força da esperança coletiva. Os “fiscais do Sarney” entraram para o imaginário nacional como símbolo de uma população que acreditou poder controlar a própria economia, ainda que por alguns meses. A Nova República começava com uma festa — mas a ressaca viria, e seria duradoura.