O corpo na rede
Soou meio estranho essa última afirmação? Pois é, isso porque até recentemente não existia uma legislação que punisse esse tipo de prática no Brasil. Quer dizer, até existia, mas ela não funcionava bem quando aplicada ao mundo virtual. Tudo mudou depois do caso em que uma atriz global se tornou a vítima da vez e o assunto realmente passou a ser discutido no Brasil. Não demorou muito para que a lei, carinhosamente apelidada de lei Carolina Dieckmann, fosse aprovada e entrasse em vigor.
O tempo passou, as coisas foram caminhando e mais uma vez somos surpreendidos com a notícia de que, não uma, mas várias celebridades tiveram suas fotos vazadas na internet. Dessa vez não foi um técnico de informática espinhento em seu momento “flap flap”, mas um hacker que encontrou uma brecha de segurança no serviço de armazenamento da Apple, chamado iCloud, e decidiu que seria divertido compartilhar com o mundo essas imagens. Atrizes famosas como Jennifer Lawrence, Kate Upton e Mary Elizabeth Winstead foram algumas das vítimas que tiveram seus registros íntimos revelados e compartilhados no 4chan e Reddit.
Tipifica crimes cibernéticos no Brasil, após vazamento de fotos da atriz.
Vazamento em massa de fotos de celebridades do iCloud. Jennifer Lawrence, entre outras.
De Pamela Anderson a Paris Hilton, registros caseiros que migraram para a rede.
Toda essa discussão, reacendida com esses pacotes de fotos de celebridades vazadas na internet, têm feito as pessoas se questionarem sobre o quão protegidas elas estão. Se celebridades não estão imunes e muito menos com poderes para evitar o compartilhamento dessas imagens, imagine as pessoas comuns.
Para refletir sobre as indagações feitas anteriormente vamos voltar no tempo e relembrar o caso Edward Snowden, um ex-agente de segurança americano responsável por delatar um monstruoso esquema de espionagem feita pela NSA. Em algumas das entrevistas concedidas às maiores agências de notícias do mundo, Snowden afirmou que dados, não só de americanos, mas de cidadãos do mundo todo, eram facilmente acessados por qualquer analista de inteligência subalterno. Como isso era feito? De acordo com Snowden, os agentes da NSA exploravam brechas de segurança pouco conhecidas, mas que as empresas responsáveis pelos serviços e equipamentos estavam cientes de tais brechas e faziam vista grossa mediante o pagamento de algum tipo de propina ou punição por parte do governo. Empresas como Google, Apple, Microsoft e até o Skype (antes de ser adquirido pela Microsoft) tiveram os seus nomes citados durante a delação do esquema. Ou seja, mesmo que tomemos todas as medidas de segurança recomendadas pelos especialistas, ainda assim não estamos seguros e é apenas uma questão de tempo até que algum hacker com tempo livre descubra as falhas.
Então quer dizer que para não ter minhas fotos vazadas na rede eu devo simplesmente parar de registrar meus momentos com equipamentos eletrônicos conectados à internet? Bom, se você fizer isso, as chances de você cair na rede caem vertiginosamente, mas mesmo assim não estará imune a vazamentos. A pessoa que afirmar isso talvez não tenha visto ou não lembre das sextapes, que se popularizaram nos anos 70 e abriram caminho para o mundo pornô moderno. Celebridades como Pamela Anderson, Paris Hilton e até Jimi Hendrix estrelaram verdadeiras obras cinematográficas homemade. E quem me garante que depois de gravadas, essas obras não migrem para a internet e se viralizem?
Com todas essas explanações, o mais sensato a concluir é que se você não quer que suas imagens íntimas acabem caindo no domínio público, então garanta que essas imagens não existam. Mas não é tão simples assim. O ato de registrar o momento do acasalamento pode estar imbuído de fetiches, de desejo, de cumplicidade. Então você fica entre a cruz e a espada. Registrar o momento para satisfazer a sua libido e correr o risco de vazar, ou não registrar e se tornar uma pessoa sexualmente frustrada?
Não há resposta fácil. Nem app seguro, nem lei infalível. O que existe é um debate ainda incipiente sobre consentimento, armazenamento e o valor que damos à privacidade numa época em que tudo pode virar pixel. O corpo na rede é ao mesmo tempo imagem e vulnerabilidade. E enquanto a indústria da exposição não for encarada como problema coletivo — e não apenas como falha individual — continuaremos reféns do próximo vazamento.